Investigadores RISE identificam potencial nova terapia para feridas crónicas associadas à diabetes

Baixas doses de radiação ionizante promovem a formação de novos vasos sanguíneos e atuam diretamente no nicho da ferida, tornando o microambiente mais favorável à regeneração.
Um grupo de investigadores do Laboratório Associado RISE, liderado por Susana Constantino, em coautoria com o estudante de doutoramento Filipe Rocha (CCUL@RISE/FMUL), identificou o recurso à radiação ionizante como uma potencial nova terapia para as feridas crónicas (FC), lesões “associadas a um risco acrescido de infeções, amputações dos membros inferiores e aumento da mortalidade”.
No estudo publicado na prestigiada revista científica Materials Today Bio, os autores demonstram, através de modelos animais, que “a irradiação local na ferida é indispensável para alcançar o benefício terapêutico total”, revelando uma interação estreita entre o hospedeiro e a construção terapêutica. De acordo com os investigadores do RISE, estes resultados sugerem que a radiação pode desempenhar um papel ativo na modulação do microambiente regenerativo, apresentando-se, por isso, como uma potencial nova terapia para as feridas crónicas associadas à diabetes.
Segundo Susana Constantino e Filipe Rocha, “baixas doses de radiação ionizante (LDIR) podem atuar em vários níveis. Por um lado, reprogramam os esferoides dérmicos, aumentando a proliferação e migração de fibroblastos, promovendo a formação de novos vasos sanguíneos e estimulando a libertação de múltiplos fatores pró-regenerativos. Por outro lado, atuam diretamente no nicho da ferida, tornando o microambiente mais favorável à regeneração”.
“Esta estratégia funciona como uma abordagem que ativa vários mecanismos de reparação ao mesmo tempo, em vez de depender de um único fator terapêutico”, sendo precisamente esta capacidade de agir simultaneamente sobre as células e sobre o ambiente da ferida, que “na nossa compreensão, lhe conferirá um elevado potencial para ultrapassar as limitações das terapias biomoleculares convencionais no tratamento das feridas crónicas”, apontam os especialistas do Laboratório Associado RISE.
Na visão dos investigadores, “para melhorar o diagnóstico, tratamento e prevenção destas feridas, é essencial atuar em várias frentes. Os programas de literacia em saúde, dirigidos a populações de risco, são de extrema importância, pois permitirão reconhecer precocemente sinais de alarme e promover a procura atempada de cuidados de saúde. Iniciativas como as desenvolvidas no Laboratório Associado RISE e no Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa (CCUL@RISE), incluindo ações por parte dos nossos investigadores em escolas, têm como objetivo sensibilizar não só as crianças, mas também as famílias, para a importância da prevenção, do controlo de fatores de risco e da vigilância da saúde ao longo da vida”.
“A incidência de feridas crónicas deverá continuar a crescer. Assim, a prevenção, o diagnóstico precoce e uma abordagem integrada e multidisciplinar são tão determinantes para melhorar os resultados clínicos quanto o desenvolvimento de novas terapias”, concluem.
O artigo “Low-dose ionizing radiation in vivo unlocks the therapeutic potential of prevascularized dermal spheroids in chronic wounds” é um trabalho científico desenvolvido por Filipe Rocha, no âmbito do seu doutoramento em Ciências Biomédicas, e conta com a coautoria de Susana Constantino, Inês Sofia Vala, Paula Oliveira, Carolina Fernandes, investigadores do Laboratório Associado RISE (CCUL@RISE/FMUL). Pedro Faísca, Marta Teixeira Pinto, Filomena Pina, Esmeralda Polo, Isabel Diegues, Eugénia Carvalho e Cristina C. Barrias integram, também, a lista de autores.