Entrevista | Margareta Correia

Margareta_Correia

Investigadora do Laboratório Associado RISE, do Centro de Investigação do IPO Porto e docente no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS-UP).

Margareta Correia é investigadora do Laboratório Associado RISE – Rede de Investigação em Saúde (RISE-LA) e do Centro de Investigação do Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO Porto), onde desenvolve a sua atividade científica na área da oncologia, com particular enfoque na imunologia antitumoral e no estudo de mecanismos moleculares de evasão imunológica associados ao cancro. Paralelamente, mantém ligação académica ao Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS-UP), contribuindo para a formação e orientação de estudantes na área das ciências da saúde.

Doutorada em Ciências Biomédicas, tem dedicado o seu percurso científico ao estudo dos processos celulares e moleculares envolvidos na regulação de respostas imunes contra o cancro. No Centro de Investigação do IPO Porto, o seu trabalho centra-se, em particular, na compreensão de mecanismos epigenéticos que regulam a função das células imunes e a sua interação com as células tumorais, procurando identificar potenciais alvos terapêuticos e o desenvolvimento de novas terapias celulares.

Ao longo da sua carreira, participou em diversos projetos de investigação financiados e assinou múltiplas publicações científicas em revistas internacionais, contribuindo para o avanço do conhecimento na área da imunologia e oncologia básica e translacional. A sua investigação combina abordagens experimentais em biologia celular e molecular, promovendo a ligação entre a investigação fundamental e translacional com potencial aplicação clínica.

O que a levou a escolher Biologia Aplicada e, mais tarde, a especializar-se em imunologia tumoral e epigenética?      

Desde que me lembro, sempre fui fascinada pela complexidade da vida. Recordo-me de, desde muito cedo, ter livros de ciência na mão e percorrer avidamente as páginas vezes sem conta. A beleza de descobrir o que era uma célula, de perceber a complexidade por trás de cada órgão e de compreender como tudo funcionava de forma tão perfeita e interligada. Era já óbvio que a minha paixão eram as ciências.

A Biologia Aplicada na Universidade do Minho era um curso novo e alinhava-se exatamente com o que eu queria, sendo vocacionado para a investigação científica. Relativamente à imunologia, isso foi inquestionavelmente uma paixão clara dentro de outra paixão. Quando tive o primeiro contacto com a Imunologia, ainda no ensino secundário, foi um amor imediato. A beleza que existe na complexidade intricada dos mecanismos de comunicação entre os diferentes tipos de células, harmoniosamente orquestrados para nos defender. Fascinante. Lembro-me de, na altura, a vasta maioria dos colegas não gostar dessa matéria por ser demasiado complexa. Eu amei. Esse fascínio continuou durante o curso e a escolha do estágio foi inevitável: um projeto em Imunologia Tumoral. Senti-me uma privilegiada por poder desenvolver um projeto na minha área favorita, que continua a sê-lo até agora. A epigenética veio bastante mais tarde.

Ao longo do seu percurso, como surgiu o interesse pela investigação em imunologia tumoral e epigenética?
Estes dois pilares – Biologia do Cancro e Imunologia – foram absolutamente marcantes e determinantes na escolha da área de especialização. O doutoramento em Ciências Biomédicas, no ICBAS-UP, foi desenvolvido no (antigo) IBMC, em colaboração com a Universidade de Düsseldorf, na Alemanha, e permitiu-me explorar e fazer novas descobertas dentro dessa área.

Ser a primeira pessoa a descobrir algo que nunca ninguém tinha descoberto até então é entusiasmante, e são esses momentos de eureka efémeros que nos alimentam o entusiasmo. Durante o doutoramento descobri e explorei o potencial antitumoral de um subtipo específico de células T híbridas com caraterísticas de células NK. O meu interesse esteve sempre focado na exploração de mecanismos básicos da resposta imunológica contra o cancro e no seu potencial translacional para potenciar a eliminação de células tumorais, que continua a entusiasmar-me profundamente todos os dias.

A epigenética entrou verdadeiramente no meu percurso científico com a minha vinda para o Centro de Investigação do Instituto Português de Oncologia do Porto, ao integrar o grupo de Epigenética e Biologia do Cancro no final de 2019. Embora, na realidade, se pensar bem, começou muito mais cedo. Recordo-me de, ainda durante o estágio de licenciatura, em 2004, ter conversas com um colega sobre epigenética. Ambos partilhávamos a intuição de que aqueles mecanismos, então ainda vistos por nós como “novos e fascinantes”, viriam a assumir um papel central na Imunologia do Cancro. Mais tarde, durante parte do meu doutoramento, acabei por explorar a metilação em células imunes quase por acaso. No pós-doutoramento, uma vez mais de forma inesperada, voltei a cruzar-me com a epigenética, ao estudar a metilação de um gene-chave para a regulação das células imunes que investigava. Sem o ter planeado, este tema regressava continuamente ao meu percurso. De certa forma, a epigenética parecia destinada a fazer parte da minha carreira.

Ser investigadora sempre fez parte das suas ambições?

Desde que me conheço sempre fui curiosa: “o quê?”, “como?” e “porquê?” sempre povoaram o meu pensamento enquanto olhava o mundo à volta. À medida que fui descobrindo o universo da ciência nos livros, na escola, em séries (quem se lembra do “Era uma vez a vida”?), desenvolvi um profundo interesse por compreender os mecanismos que regem os mistérios da vida. Sabia que amava a ciência ainda sem compreender exatamente o que era ciência, muito menos o que significava ser cientista.

No final do ensino secundário tive uma professora de técnicas laboratoriais de Biologia (que também era investigadora) que foi profundamente inspiradora. Lembro-me de pensar, na altura, como era extraordinário alguém poder fazer aquilo que eu tanto admirava: fazia ciência. Foi a primeira pessoa a dizer-me que eu tinha “perfil para ser cientista”. Na altura, embora fosse ainda para mim um conceito vago e abstrato, essa frase foi transformadora. Pela primeira vez, a ciência deixou de ser apenas um fascínio e passou a ser um horizonte possível de vida profissional.

Durante o curso, à medida que explorava os livros científicos, comecei a ambicionar cada vez mais um dia fazer uma descoberta que ajudasse a completar, ainda que parcialmente, um esquema integrado do conhecimento: descobrir uma peça de um mecanismo, compreender como funciona uma interação celular. Foi aí que comecei a perceber: isso era, de facto, a minha paixão.

Realizou parte significativa da sua formação e investigação no estrangeiro, nomeadamente no German Cancer Research Center (DKFZ). De que forma essa experiência internacional influenciou a sua forma de pensar e fazer ciência?

Depois do doutoramento candidatei-me a uma bolsa internacional do programa de pós-doutoramento do German Cancer Research Center (DKFZ), em Heidelberg, na Alemanha. Fui uma das dez pessoas selecionadas nesse ano e foi, sem dúvida, um privilégio e uma oportunidade incrível fazer parte desse programa, sendo o DKFZ o maior instituto de investigação em cancro na Alemanha. Os cientistas de renome mundial que tive a oportunidade de conhecer e interagir diariamente foram fundamentais para o desenvolvimento da minha identidade científica. O modo desconstruído da maioria dos cientistas falar e discutir ciência, a capacidade conceptual de discussão, a maneira de pensar foram, para mim, transformadores. Pelos corredores cruzavam-se cientistas com trabalhos de impacto mundial, nomeados e distinguidos com o Prémio Nobel. Contudo, havia uma cultura de abertura e partilha, onde a ciência era discutida sem qualquer tipo de formalidade ou hierarquia rígida. Um exemplo incrível era Harald zur Hausen, antigo diretor do instituto e Prémio Nobel pela descoberta do papel do HPV no cancro do colo do útero, uma figura simultaneamente humilde, brilhante e profundamente inspiradora.

Além da excelência científica, do acesso a plataformas de topo e de uma massa crítica excecional, as iniciativas do Departamento de Imunologia Tumoral foram das mais inspiradoras da minha carreira. Das discussões científicas semanais, às lendárias festas de Natal, passando pelos torneios de futebol do departamento e pelos retiros de Imunologia absolutamente únicos – onde ciência, partilha e convivência à volta da fogueira se fundiam num ambiente verdadeiramente inesquecível. Isso são coisas que marcam positivamente o que é fazer ciência. Absolutamente inspirador, único e marcante para mim.

Como surgiu a oportunidade de integrar o Instituto Português de Oncologia do Porto?

Depois de mais de oito anos na Alemanha, senti que tinha chegado o momento certo para regressar a Portugal. Era altura de voltar. Não apenas para regressar, mas para finalmente estabelecer a minha própria linha de investigação e aprofundar o que tinha aprendido. Por coincidência, nesse período surgiu uma vaga no Grupo de Epigenética e Biologia do Cancro, no Instituto Português de Oncologia do Porto (IPO Porto), que procurava exatamente alguém com experiência em Imunologia Tumoral para uma posição de Investigador Auxiliar. Foi a Professora Carmen Jerónimo quem me lançou o desafio de iniciar uma linha independente integrando Imunologia Tumoral e Epigenética, confiando na minha experiência e visão, tendo a obtenção de financiamento externo permitido expandir e consolidar a minha linha de investigação. Atualmente, lidero a equipa de Imunologia Tumoral e Epigenética, dedicada a investigar mecanismos epigenéticos que modulam as respostas imunes antitumorais.

O nosso trabalho combina abordagens básicas e translacionais, incluindo o desenvolvimento de novas terapias inovadoras, como fármacos moduladores epigenéticos e terapias celulares com células NK e CAR-T. Para além da paixão da descoberta científica, a oportunidade de acompanhar e direcionar o crescimento de alunos excecionais e de contribuir para o desenvolvimento da minha equipa continua a ser, sem dúvida, um dos aspetos mais gratificantes da minha carreira.

Sinto como um privilégio ter-me sido dada também a oportunidade de lecionar no ICBAS, na Universidade do Porto. Algo de que gosto profundamente. Todos os dias sou relembrada de que a minha vocação passa muito pela supervisão, mentoria e ensino. A decisão de regressar foi, assim, muito mais do que uma escolha profissional: representou a oportunidade de consolidar no meu país a minha dedicação à investigação, ao ensino e à minha área de paixão, a Imunologia.

Na sua opinião, qual é a importância da criação de uma Rede de Investigação em Saúde e que impacto poderá o Laboratório Associado RISE ter no fortalecimento da investigação e da inovação em saúde em Portugal?

Na minha visão, as verdadeiras descobertas só podem advir da interligação e da comunicação entre diferentes áreas científicas. A multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade são fulcrais para o desenvolvimento científico. O conceito de uma Rede de Investigação em Saúde desenha-se como privilegiado para aproximar pessoas, ideias e conhecimento em torno de um objetivo comum: melhorar a saúde e a qualidade de vida da população.

Mais do que uma estrutura formal, essa rede deve ser um espaço de encontro entre investigadores, profissionais de saúde e instituições, onde são promovidas, em conjunto, novas oportunidades de inovação que nascem de uma visão plural. Assim, o RISE-LA tem o potencial de ser um verdadeiro motor de transformação, ao ligar diferentes áreas do saber e promover uma investigação mais integrada, colaborativa e orientada para os desafios reais da sociedade. Esta articulação permite que o conhecimento científico se traduza mais rapidamente em soluções concretas para os doentes e para o sistema de saúde.

Vejo o RISE-LA como uma oportunidade para inspirar novas gerações de investigadores, fortalecer a cultura científica e criar um ecossistema onde a criatividade, a partilha e a excelência caminham juntas. Ao apostar na cooperação e na construção coletiva, esta rede pode deixar um legado duradouro, não só em termos de produção científica, mas também no impacto humano e social da investigação em saúde.