Entrevista | Inês Vala

Inês_Vala

Investigadora do Laboratório Associado RISE e do Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa

Inês Vala é investigadora do Laboratório Associado RISE – Rede de Investigação em Saúde (RISE-LA) e do Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa (CCUL@RISE), onde desenvolve a sua atividade científica na área da biologia vascular e celular, com particular enfoque nos mecanismos de angiogénese e na sua relevância para processos oncológicos e cardiovasculares.

Doutorada em Biologia Celular e Molecular pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, tem dedicado o seu percurso científico ao estudo dos processos moleculares e celulares que regulam a formação de novos vasos sanguíneos e a sua interação com o microambiente tumoral. No CCUL@RISE, o seu trabalho procura aprofundar a compreensão destes mecanismos, com vista à identificação de potenciais alvos terapêuticos em contexto oncológico e cardiovascular.

Ao longo da sua carreira, participou em diversos projetos de investigação e assinou publicações científicas em revistas internacionais, contribuindo para o avanço do conhecimento na área da biologia vascular. Para além da investigação, tem também um percurso relevante em comunicação e divulgação de ciência, nomeadamente através da sua colaboração com a Ciência Viva, o que reforça o seu compromisso com a ligação entre a investigação científica e a sociedade.

O seu percurso académico passou pela Biologia e culminou num doutoramento sobre os efeitos da radiação ionizante de baixa dose na angiogénese. O que a atraiu para esta área específica da investigação? Ser investigadora sempre fez parte das suas ambições?

Não sei se posso dizer que ser “investigadora” sempre fez parte das minhas ambições de forma muito clara ou planeada – sobretudo nesta área. Quando entrei em Biologia, imaginava-me talvez mais próxima de uma espécie de “David Attenborough”.
O que sempre esteve presente foi a curiosidade por perceber como as coisas funcionam e a vontade de transformar essa mesma curiosidade em conhecimento que pudesse ter utilidade – fosse na preservação do planeta, na saúde ou, de forma mais ampla, no bem-estar das pessoas.

No final da licenciatura, senti que queria explorar a área da saúde e que a investigação podia ser esse lugar onde a curiosidade se transforma em conhecimento. Falei com vários investigadores principais dentro das áreas que mais me interessavam e tive a sorte de conhecer a Professora Susana Constantino que, na altura, estava a formar a Unidade de Angiogénese no Instituto de Medicina Molecular João Lobo Antunes (iMM). Acho que foi sobretudo a forma apaixonada como falava do que fazia que acabou por me “contagiar”. A angiogénese, classicamente descrita como “a formação de novos vasos sanguíneos a partir de vasos pré-existentes”, é um processo muito elegante: essencial ao desenvolvimento, à reparação dos tecidos e à cicatrização, mas também profundamente envolvido em situações patológicas, como o cancro ou a isquemia.

A questão das baixas doses de radiação ionizante surgiu depois, numa linha de investigação que a Professora Susana Constantino começava a explorar em estreita colaboração com o Serviço de Radioterapia do Hospital de Santa Maria. Partia de uma observação muito ligada à prática clínica: em radioterapia, não é apenas o tumor que é exposto à radiação; os tecidos saudáveis em redor também recebem doses mais baixas. Perceber que efeitos biológicos essas doses subterapêuticas poderiam ter na vasculatura tornou-se uma questão científica particularmente estimulante e acabou por ser o centro do meu doutoramento.

O que mais me atraiu foi esse lado quase paradoxal: estamos habituados a pensar na radiação sobretudo pelo seu potencial lesivo,mas começámos a observar que doses baixas podiam ter efeitos biológicos muito específicos, nomeadamente na ativação da vasculatura e na modulação da angiogénese. Interessou-me também o facto de esta questão estar na fronteira entre a biologia fundamental e a prática clínica: não apenas compreender um mecanismo celular isolado, mas perceber como esse conhecimento poderia ajudar a interpretar melhor os efeitos da radioterapia e, mais tarde, abrir caminho a possíveis aplicações terapêuticas em contextos onde a formação de novos vasos sanguíneos é desejável.

O seu trabalho centra-se na regulação da angiogénese e nas suas aplicações clínicas, nomeadamente o uso de radiação ionizante de baixa dose para promover angiogénese terapêutica. Que implicações práticas poderá ter esta abordagem no tratamento de doentes cardiovasculares?

A ideia central é relativamente simples: há várias doenças cardiovasculares e situações de lesão tecidular em que o problema passa, pelo menos em parte, por uma vascularização insuficiente. Quando os tecidos não recebem oxigénio e nutrientes em quantidade adequada, a sua capacidade de reparação fica comprometida. Se conseguirmos promover a formação ou estabilização de novos vasos sanguíneos de forma controlada, poderemos melhorar a perfusão dos tecidos e favorecer processos de regeneração.

As baixas doses de radiação ionizante têm vindo a ser estudadas precisamente nesse contexto, porque demonstraram capacidade para modular a vasculatura e induzir respostas pró-angiogénicas em modelos experimentais. Em termos práticos, isto poderá ser particularmente relevante em situações como a isquemia crítica do membro inferior, mas também em feridas crónicas ou noutros contextos de reparação e regeneração tecidular em que a vascularização é um fator limitante.

Naturalmente, ainda não estamos a falar de uma solução pronta a aplicar na prática clínica. Para mim, o ponto essencial é compreender melhor os mecanismos através dos quais baixas doses de radiação promovem estas respostas vasculares. Conhecendo esses mecanismos, poderemos intervir de forma mais precisa e, eventualmente, modular a resposta de acordo com o contexto clínico.

Ao mesmo tempo, o estudo dos efeitos da radiação tem também uma dimensão cardiovascular mais ampla. No nosso grupo, procuramos compreender de que forma diferentes doses de radiação se relacionam não só com a promoção de angiogénese terapêutica, mas também com os efeitos nos tecidos saudáveis expostos em contexto clínico, incluindo o coração. Esta vertente é particularmente relevante na área da cardio-oncologia, onde é importante antecipar e prevenir a cardiotoxicidade associada à radioterapia.

No fundo, penso que é uma oportunidade de transformar conhecimento fundamental sobre a resposta vascular à radiação numa abordagem com potencial translacional, da medicina regenerativa à cardio-oncologia, sempre numa ligação estreita entre biologia, física médica e clínica.

Integra o Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa (CCUL) como investigadora de pós-doutoramento na Unidade de Angiogénese. Como surgiu essa integração e que desafios coloca investigar num centro vocacionado para a área cardiovascular, sendo a sua formação de base em Biologia?

Na verdade, a minha integração no CCUL foi também uma espécie de regresso. Comecei o meu percurso científico na Unidade de Angiogénese, ainda no iMM, onde desenvolvi o meu doutoramento. Depois tive um percurso de cerca de dez anos na Ciência Viva, mais ligado à literacia científica, educação e comunicação de ciência. Em 2021, surgiu a oportunidade de regressar à Unidade, já integrada no CCUL, e fez-me sentido voltar à investigação num contexto em que as perguntas biológicas tinham uma forte dimensão clínica e translacional.

Ter formação de base em Biologia, num centro cardiovascular, é simultaneamente um desafio e uma vantagem. O desafio passa por aprender a dialogar com outras linguagens — a clínica, a física médica, a cirurgia, a bioinformática — e perceber de que forma os mecanismos que estudamos no laboratório se relacionam com doença, tratamento e qualidade de vida dos doentes. Mas a Biologia também permite olhar para os tecidos como sistemas vivos e dinâmicos, onde células, vasos, matriz extracelular, metabolismo e resposta ao dano estão sempre em interação.

E é precisamente por isso que a investigação nesta área tem de ser multidisciplinar. Num centro como o CCUL, trabalhamos com cardiologistas, físicos médicos, cirurgiões, bioinformáticos, engenheiros e investigadores de diferentes áreas. Cada um traz a sua linguagem, as suas ferramentas e a sua forma de pensar. Nem sempre é simples, mas é nesse cruzamento que todos aprendemos uns com os outros e que as perguntas científicas se tornam mais completas — e, muitas vezes, mais relevantes do ponto de vista clínico.

Além da investigação, abraçou a comunicação de ciência, tendo liderado o Departamento de Programa Científico e Eventos da Ciência Viva, e foi docente na Universidade Lusófona. Como concilia estas três dimensões — investigação, ensino e comunicação científica? Considera que a literacia científica da população é determinante para a saúde cardiovascular em Portugal?

Para mim, investigação, ensino e comunicação de ciência não são dimensões separadas. São formas diferentes de trabalhar com conhecimento. A investigação permite-me fazer perguntas novas e contribuir para produzir conhecimento. O ensino obriga-nos a organizar esse conhecimento, a torná-lo claro e a acompanhar o modo como os estudantes constroem pensamento crítico. A comunicação de ciência lembra-me constantemente de que o conhecimento só cumpre plenamente o seu papel se puder circular para além dos laboratórios e das universidades.

Durante mais de dez anos, na Ciência Viva, essa dimensão da comunicação e da literacia científica foi a minha atividade principal. Hoje já não é, mas continua muito presente na forma como me relaciono com os outros, e através da ligação ao Centro de Formação Ciência Viva e à formação de professores. A experiência de docência foi também muito importante para mim. O ensino continua a ser uma dimensão de que gosto particularmente, pelo impacto que um bom professor pode ter no percurso de um aluno (e eu própria tive professores assim), mas também pelo retorno que recebemos: cada pergunta é um novo desafio e cada pessoa traz sempre algo novo para nos ensinar. Acho que guardo algo especial de todos os alunos que passaram por mim.

Conciliar estas áreas nem sempre é simples, nas todas se alimentam mutuamente.

Quanto à literacia científica e em saúde, sim, considero-a determinante para a saúde cardiovascular. As doenças cardiovasculares estão muito ligadas a fatores de risco conhecidos, como hipertensão arterial, diabetes, sedentarismo, alimentação ou tabaco, mas a questão não é apenas disponibilizar informação. Muitas pessoas conhecem, pelo menos de forma geral, alguns comportamentos de risco e algumas recomendações de prevenção, mas isso, por si só, nem sempre é suficiente para mudar hábitos, pois não? A grande pergunta talvez seja precisamente essa: como passamos do conhecimento à mudança? Para isso, a literacia em saúde é essencial, porque ajuda as pessoas a compreender fatores de risco, reconhecer sinais, dialogar com profissionais de saúde e tomar decisões mais informadas. Mas não chega isoladamente. A saúde cardiovascular depende também do contexto social, do acesso a cuidados de saúde, da educação, do ambiente urbano, das condições económicas e das oportunidades reais que cada pessoa tem para viver de forma mais saudável. Por isso, a literacia em saúde deve caminhar a par de políticas e contextos que tornem essas escolhas possíveis.

Na sua perspetiva, o que representa para a investigação cardiovascular portuguesa fazer parte de uma rede como o Laboratório Associado RISE?

Fazer parte de uma rede como o RISE representa, antes de mais, uma oportunidade de trabalhar com mais massa crítica e maior articulação. A investigação cardiovascular é uma área muito ampla, que vai desde os mecanismos moleculares e celulares até à clínica, à epidemiologia, à engenharia biomédica, aos dados, à prevenção e à literacia em saúde. Nenhum grupo, isoladamente, consegue responder a toda esta complexidade.

Uma rede permite aproximar competências que muitas vezes existem, mas estão dispersas. Permite partilhar conhecimento, metodologias, infraestruturas e perguntas. E permite também criar uma linguagem comum entre áreas diferentes, o que é essencial quando queremos transformar conhecimento científico em soluções com impacto real.

Penso que o RISE pode ter um papel muito importante na consolidação de uma investigação cardiovascular portuguesa mais colaborativa, mais visível e mais competitiva internacionalmente. Ao ligar investigação básica, clínica, tecnologia, formação e sociedade, cria condições para acelerar a passagem do conhecimento para contextos onde ele possa ser útil — seja no desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas, na prevenção, na formação de jovens investigadores ou na promoção da literacia em saúde.

A investigação cardiovascular precisa dessa ponte entre laboratório, clínica, sistema de saúde e sociedade. O RISE pode ser um espaço importante para construir essa ponte.