Entrevista | Isabel Miranda

Investigadora do Laboratório Associado RISE, da Unidade de Investigação RISE-Health e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP)
Isabel Miranda é investigadora do Laboratório Associado RISE, da Unidade de Investigação RISE Health e da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), onde desenvolve a sua atividade científica e académica nas áreas de Fisiologia e Microbiologia.
Doutorada em Biologia pela Universidade de Aveiro, tem dedicado o seu trabalho às áreas das Ciências Cardiovasculares, Biologia Molecular e Microbiologia, com particular enfoque no estudo do microbioma e da sua relação com o surgimento e o desenvolvimento de doenças. Grande parte do seu percurso foi dedicado ao estudo dos processos moleculares associados às doenças infecciosas, em particular aos mecanismos de infeção e resistência a antifúngicos de fungos patogénicos oportunistas.
Ao longo do seu percurso enquanto investigadora, assinou diversos artigos científicos publicados em revistas internacionais, tendo participado em projetos de investigação competitivos orientados para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas no combate a infeções microbianas.
A sua investigação combina metodologias de biologia molecular e microbiologia aplicada, contribuindo para o avanço do conhecimento da relação entre os microrganismos e o ser humano.
Começou o seu percurso académico ao ingressar na licenciatura em Biologia, na Universidade de Aveiro. O que a motivou a escolher esta área?
Sempre fui interessada em entender o porquê das coisas. Motiva-me perceber a mecanística dos processos biológicos e, na altura, considerei que a licenciatura em Biologia me proporcionaria esse tipo de conhecimento. Depois, percebi que a licenciatura não correspondia às minhas expectativas… e confesso que, em determinada altura, equacionei mudar de curso. No entanto, como sou teimosa, decidi terminar a licenciatura. Fiz bem. A licenciatura é apenas uma ferramenta que nos fornece bases e alguma maturidade para optar por uma especialização. Por meio dela, podemos e devemos catapultar-nos para outras áreas do conhecimento mais específicas.
Durante o seu percurso, como surgiu o interesse pela microbiologia?
O meu interesse pela microbiologia surgiu durante a licenciatura. Foi a única unidade curricular em que foram ministrados conteúdos de biologia molecular e foi das poucas a despertar o meu interesse. O meu estágio de final de licenciatura foi realizado nesta área e, desde então, é uma área que me acompanha no meu percurso académico e profissional. Aparentemente simples, os microrganismos têm uma complexidade desafiante em termos científicos e desempenham um papel relevante em diversas áreas, desde a saúde até o ambiente, a biotecnologia e a indústria alimentar, entre outras.
Ser investigadora sempre fez parte das suas ambições?
Sim, sempre! Na Universidade de Aveiro, existem duas licenciaturas distintas: a de Geologia, que forma professores, e a de Biologia, que forma investigadores, pela qual optei. Confesso que tem sido um percurso exigente no que diz respeito à incerteza profissional. No entanto, as questões científicas são motivadoras e as pequenas descobertas são muito gratificantes.
Como surgiu a oportunidade de integrar a UnIC – Unidade de Investigação e Desenvolvimento Cardiovascular, que se fundiu na nova Unidade de Investigação RISE-Health?
Em 2009, os elementos do Laboratório de Microbiologia, ao qual pertencia, estavam integrados na UnIC. Foi por esta altura que, como investigadora da UnIC, ganhei um Contrato Ciência, que terminou em 2013. Mais tarde, em 2017, mudei-me para o Departamento de Cirurgia e Fisiologia, assumindo as responsabilidades de gestão do Laboratório de Biologia Molecular e gestão de ciência da UnIC, atual RISE-Health.
Na sua perspetiva, qual a importância da criação de uma Rede de Investigação em Saúde? Que impacto poderá ter o Laboratório Associado RISE no setor da saúde e na investigação ligada a esta temática?
Considero a investigação de translação em saúde, protagonizada pelo Laboratório Associado RISE, extremamente relevante para o desenvolvimento científico nesta área. A harmonização entre a investigação clínica e laboratorial traduz o conhecimento científico em benefícios clínicos e populacionais. A natureza multidisciplinar do RISE permite a comunicação transversal e bidirecional entre a clínica e o laboratório, possibilitando a compreensão holística das questões científicas, desde a mecanística molecular com impacto fisiológico na saúde humana até ao desenho de intervenções e soluções clínicas, gerando dividendos económicos para a sociedade e acelerando a inovação em saúde.
Frequentemente, pensa-se na ciência como complexa e fechada sobre si própria, sem aplicação prática óbvia e com pouco retorno à sociedade. Acho que não bastou a pandemia, em que a ciência demonstrou todo o seu valor e importância no encontro de uma solução rápida e eficaz; é necessário que os cientistas comuniquem a sua ciência à sociedade e saibam traduzir a ciência que produzem em valor acrescentado à sociedade e à economia. O RISE desempenhará, sem dúvida, um papel determinante no desenvolvimento desta investigação de translação.
É uma das investigadoras do Laboratório Associado RISE que colabora com iniciativas de ligação à comunidade, como o RISE nas Escolas. Na sua perspetiva, que impacto podem ter estas atividades na investigação em Portugal e no seu impacto na sociedade?
Para mim, as atividades de divulgação científica constituem um pilar relevante na missão de um cientista.
Claro que os cientistas divulgam a ciência que produzem aos seus pares em congressos e conferências ou por meio de publicações. O pensamento crítico dos nossos pares é crucial para a evolução positiva da ciência. Todos ambicionamos fazer mais e melhor ciência e a visão crítica da ciência que produzimos é fundamental.
No entanto, a divulgação científica à sociedade não é uma questão de menor importância. A comunicação de ciência nas escolas pode fazer a diferença para o futuro das novas gerações, estimulando o pensamento crítico, a criatividade e a motivação para o conhecimento informado. É extremamente relevante desmistificar a complexidade científica e o raciocínio subjacentes ao procedimento experimental e científico, aproximando a ciência do quotidiano da sociedade. Só este tipo de conhecimento permite escolhas informadas numa sociedade inundada de informação. É minha convicção de que os cientistas devem subscrever esta missão. Afinal, de que serve o conhecimento se não for partilhado?
Na sua perspetiva, o que é necessário fazer – ao nível da microbiologia e da investigação sobre infeções fúngicas – para melhorar a prevenção, o diagnóstico e o tratamento em Portugal?
Tal como as células humanas, os fungos são organismos eucarióticos, daí que os alvos moleculares para a terapia fúngica sejam limitados. Com a exposição prolongada aos antifúngicos, os fungos desenvolvem tolerância e resistência a esses fármacos. Deste modo, considero que o futuro passará pelo uso da tecnologia para deteção de mecanismos moleculares de resistência e pela consequente administração criteriosa das terapêuticas antifúngicas.
A pesquisa por novos alvos terapêuticos e por novas moléculas com atividade antimicótica deverá ter a continuidade desejada. Sendo os fungos microrganismos comensais, parte integrante da nossa microbiota, será desafiante explorar o papel da microbiota na saúde humana.